Orçamento

Custos indiretos em parcerias MROSC: o que pode e como calcular o rateio

O que a Lei 13.019/2014 permite pagar como custo indireto, como dividir aluguel, contas e contabilidade entre projetos e o que guardar para justificar cada centavo.

Tela de notebook com gráficos de barras e linhas, ao lado de uma planta

Foto: Unsplash

A sede da OSC tem um aluguel de R$ 4.000, uma conta de luz que ninguém gosta de abrir e uma contadora que atende todos os projetos. O termo de fomento novo vai ocupar duas das cinco salas. Dá para pagar parte disso com o recurso da parceria? Dá. O problema quase sempre está no como.

Os custos indiretos são a parte da estrutura da OSC que o projeto usa, mas que não existe só por causa dele. A seguir: o que a lei diz, um método de rateio com números e os erros que mais aparecem na análise das contas.

Custos indiretos podem ser pagos com recursos da parceria?

Sim. O art. 46, inciso III, da Lei 13.019/2014 autoriza o pagamento de custos indiretos necessários à execução do objeto, seja qual for a proporção em relação ao valor total da parceria. As condições práticas são três: a despesa precisa estar prevista no plano de trabalho, ser proporcional ao uso pelo projeto e não ser paga duas vezes por fontes diferentes.

Isso foi uma mudança grande em relação à lógica dos antigos convênios, em que despesas administrativas costumavam ser vedadas. Mas custo indireto não é “taxa de administração”. Um percentual redondo, sem memória de cálculo, é o tipo de valor que a comissão questiona. O que a lei permite é pagar a fração real de despesas que o projeto de fato usa.

Na esfera federal, o Decreto 8.726/2016 dá exemplos de custos indiretos, como internet, transporte, aluguel, telefone, consumo de água e energia e remuneração de serviços contábeis e de assessoria jurídica. Estados e municípios têm regulamentos próprios, então confira o do seu ente e o edital.

O que entra como custo indireto e como ratear

Para cada despesa, escolha um critério de rateio que faça sentido e que você consiga provar. Um critério ruim, mas documentado, é mais fácil de defender do que um bom critério que só existe na cabeça do financeiro.

Despesa da sedeCritério de rateio comumComo provar
AluguelÁrea ou número de salas usadas pelo projetoPlanta ou lista de salas com a destinação de cada uma
Energia e águaMesma proporção da área, ou horas de usoFaturas e o mesmo documento de área
Internet e telefonePessoas da equipe do projeto sobre o total da sedeRelação da equipe por projeto
ContabilidadeProporção de lançamentos ou horas dedicadas ao projetoRelatório do escritório ou declaração com a divisão
Assessoria jurídicaHoras dedicadas ao projetoContrato e relatório de horas
Limpeza e vigilância da sedeÁrea usada pelo projetoContrato e documento de área

Como calcular o rateio: exemplo com números

Os valores abaixo são um exemplo. Imagine uma OSC com sede de cinco salas e 16 pessoas na equipe, e um projeto que usa duas salas, tem quatro pessoas e responde por 30% dos lançamentos contábeis.

DespesaTotal mensalCritério% do projetoValor no projeto
AluguelR$ 4.000,002 de 5 salas40%R$ 1.600,00
EnergiaR$ 900,002 de 5 salas40%R$ 360,00
ÁguaR$ 250,002 de 5 salas40%R$ 100,00
InternetR$ 300,004 de 16 pessoas25%R$ 75,00
ContabilidadeR$ 1.800,0030% dos lançamentos30%R$ 540,00
TotalR$ 7.250,00R$ 2.675,00

Num projeto de 12 meses, isso dá R$ 32.100,00 na rubrica de custos indiretos. No orçamento, cada linha vira um item com unidade “mês”, quantidade 1, valor unitário e 12 meses, e a memória de cálculo explica o critério. Energia e água variam de mês a mês: use a média dos últimos 12 meses e diga isso na memória.

Três passos para montar o seu

  1. Liste as despesas fixas da sede com os valores dos últimos meses.
  2. Defina um critério por despesa e escreva, numa folha assinada pela direção, por que ele foi escolhido.
  3. Coloque o resultado no orçamento como itens da rubrica Custos Indiretos, com a memória de cálculo ao lado de cada um.

E quando a sede é usada por vários projetos?

A regra de ouro: a soma dos rateios nunca passa de 100% da despesa. Se o termo de fomento paga 40% do aluguel e um edital privado paga outros 35%, os 25% restantes saem de recursos próprios da OSC. Quando dois financiadores pagam a mesma fatia, é pagamento em duplicidade, e isso vira glosa e devolução.

Mantenha uma planilha única da sede, com todas as fontes lado a lado. Quem analisa as contas de um projeto pode pedir para ver como a despesa foi dividida entre os outros.

Tela de orçamento por rubricas do Gestor Social com previsto, executado e saldo por rubrica
Custos indiretos como itens da rubrica, com previsto, executado e saldo acompanhados a cada lançamento (tela ilustrativa).

O que guardar para comprovar

  • Contrato de aluguel e contas de consumo em nome da OSC, não de dirigentes.
  • Faturas e notas fiscais de cada mês.
  • Documento do critério de rateio, assinado e datado, com planta, lista de salas ou relação da equipe.
  • Planilha da sede mostrando a parte de cada projeto e a parte paga com recursos próprios.
  • Comprovante de pagamento da parte do projeto, saído da conta específica da parceria.

Sobre o pagamento: combine com o gestor da parceria como a fração do projeto será paga. Muitos entes pedem que a parte do projeto saia da conta específica direto para o fornecedor. Pagar a conta inteira pela conta própria e depois “reembolsar” com o recurso da parceria costuma ser questionado, porque o art. 53 exige pagamento por transferência eletrônica identificada ao beneficiário final.

Cada financiamento com o seu orçamento

No Gestor Social, custos indiretos entram como itens da rubrica, com memória de cálculo, e cada financiamento do projeto tem orçamento próprio, somado numa visão consolidada.

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O que costuma dar problema

SituaçãoPor que é questionada
“10% de despesas administrativas”, sem cálculoParece taxa de administração; não mostra o uso real
Rateios que somam mais de 100%Duplicidade de pagamento entre fontes
Aluguel em nome do presidente da OSCA despesa não é da organização
Critério que muda todo mês sem explicaçãoSugere ajuste para caber no saldo
Multa e juros de conta paga com atrasoNão são necessários à execução do objeto
Despesa da sede que o projeto não usa (festa de fim de ano, reforma de outra área)Finalidade alheia ao objeto (art. 45, I)

Perguntas frequentes

Existe limite percentual para custos indiretos no MROSC?

A Lei 13.019/2014 não fixa limite: o art. 46 fala em custos indiretos seja qual for a proporção em relação ao valor total da parceria. Editais e regulamentos locais podem fixar tetos, e o valor sempre precisa ser proporcional e justificado.

Posso pagar parte do salário da coordenação administrativa como custo indireto?

Depende de como a pessoa atua. Se trabalha diretamente no projeto, a parte do tempo dela costuma entrar como equipe de trabalho (art. 46, I), com horas registradas. Confira como o edital classifica essa despesa antes de montar o orçamento.

Custo indireto precisa de cotação?

Aluguel e contas de consumo já têm valor definido em contrato ou fatura. Serviços como contabilidade e assessoria jurídica precisam ter preço compatível com o mercado, e guardar orçamentos de outros fornecedores ajuda na análise.

E se o contrato de aluguel continuar depois do fim do projeto?

A parceria só paga a parte proporcional dos meses dentro da vigência. Os meses seguintes são pagos com outros recursos da OSC.

Para ver onde os custos indiretos entram no orçamento completo, leia o guia de orçamento por rubricas. E, para não perder o que foi gasto, veja as causas mais comuns de glosa.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a leitura do edital, do termo de parceria e do regulamento do seu ente, nem a orientação de assessoria jurídica ou contábil.

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